“E no garrão da terra, Sangue, suor e mate/Não há nenhum combate que não se faça interno”, nada pode definir a Cuscobayo melhor que suas próprias composições. Um misto de referências pop com elementos da música platina, amplamente baseada em ideias como solidariedade e fraternidade.

Talvez este seja um dos segredos da banda, que vem atingindo um público cada vez maior Brasil afora. Sua estética remete a uma comunidade jovem que olha para dentro e para fora simultaneamente. Que não deixa delimitações geográficas definirem suas personalidades, mas também não esquece da cultura de seus antepassados.

Para entender melhor esse Cusco, o #Lado7 conversou com o vocalista Rafael Froner, confira!

Lado7: Em primeiro lugar, quem é a Cuscobayo?

Rafael Froner: A Cuscobayo é uma banda formada no inverno de 2012, em Caxias do Sul, e hoje baseada em Caxias e Porto Alegre. A banda é formada por Alejandro Montes de Oca no trompete, Lourenço Golin no baixo, Marcos Sandoval no cajón e vocal, Rafael Castilhos na percussão e eu, Rafael Froner, no violão e vocal. A banda meio que começou já fazendo shows, sempre com esse objetivo de tocar nossos próprios sons. Formamos um público e tivemos uma boa resposta tanto pro nosso single ‘Justificativa do Artista’ quanto pro EP ‘Na Cancha’, os dois lançados em 2013. Desde a fundação da banda conseguimos ter uma sequência de shows interessante, rodamos por mais de 20 cidades do RS e ultimamente conseguimos financiar nosso disco – que está sendo gravado – através do apoio coletivo do público, num crowdfunding que foi bem sucedido pelo Catarse.me.

Lado7: Vocês costumam apresentar a Cuscobayo como uma “banda de folk platino”, qual a concepção dos membros da banda sobre essa estética e sonoridade?

R: Essa concepção parte de um raciocínio, mas também de um lance intuitivo. Quando começamos a nos apresentar surgiu essa dúvida em relação ao rótulo, porque como cantávamos alguns sons e versões em espanhol a banda foi automaticamente ligada ao rótulo de “música latina”, que é um rótulo muito vago. Aí nessa época o Alejandro veio com essa definição “indie folk platino” que juntava esses conceitos fundamentais da banda: ser criativamente independente; tocar um som acústico, orgânico, de bases populares; e por fim, com o platino, quisemos refletir de onde vinham umas das principais influências da banda e também, tocando no ponto de sermos do extremo sul do Brasil, que tem essa característica de cultura transnacional, de irmandade.

Lado7: Esta concepção de “folk platino” seria uma alternativa à música regional produzida no Rio Grande do Sul atualmente? Uma tentativa de recriar laços com o folclore dos países platinos?

R: Olha… pode ser uma alternativa, não exatamente dentro do universo “tradicionalista/regional”, mas sim dentro do que a gente poderia chamar de “música popular”. Existe uma tensão crescente envolvendo essa estética clássica do gaúcho tradicional, e esse debate é fundamental. Boa parte da música feita no RS foi transplantada de algum lugar e se desenvolveu adquirindo as cores do lugar, e o que a gente faz é basicamente recolher uma série de influências daqui e de outros lugares e dar a nossa cor, falar das coisas do mundo nas músicas como falamos das coisas do mundo no dia a dia. O laço que criamos com os países latino-americanos em geral é através desse grito local, nos afirmamos como iguais e irmãos de continente acima de tudo – e isso basicamente cantando em português com nosso sotaque de “gaúcho da cidade”.

Lado7: As composições e a estética da banda tratam de situações comuns a jovens latino-americanos. Desde paixões futebolísticas até questionamentos sociais. Como este dialogo é trabalhado? Qual a preocupação da banda em relação ao discurso?

R: Como a relação dos membros vem de antes da banda, e de círculos que se envolviam mutuamente, a Cusco nasceu dentro de um pensamento e estilo de vida que são muito genuínos pra nós, que naturalmente se expressaram no discurso, no que cantamos e na forma com que a gente interage com as pessoas. Aí tem a questão do futebol (aquele do coração, do povo e não do dinheiro, dos usurpadores, dos estádios-teatro) que a gente usa como uma fonte de inspiração em vários níveis, tem as questões meio existenciais que a gente levanta, alguns pensamentos, questionamentos… encarando a vida de uma forma multiversal, ampla, diversa.

Lado7: Com pouco menos de três anos de existência, a Cuscobayo gera uma grande mobilização por parte dos fãs. Exemplo disso foi o êxito da banda no projeto de financiamento coletivo do próximo disco a ser lançado. A que se deve essa fidelidade, na tua opinião?

R: Acho que tem a ver com a pergunta anterior, que é essa facilidade que a gente encontrou de expressar um estilo de vida e de pensamento que se reverbera em toda uma galera. Muito do nosso público, das pessoas que fizeram o projeto acontecer, são gente que facilmente reconhecemos nos shows. É difícil ver de dentro o porquê, mas uma coisa que nos foi dita algumas vezes é de que a banda nunca tenta parecer algo que ela não é, a gente é honesto no que a gente faz e acho que essa atitude gera resposta e identificação.

Lado7: Caxias é atualmente um pólo de música independente no Rio Grande do Sul. A cidade não só vem gerando ótimas bandas como também atrai bandas de fora do estado que às vezes nem passam pela capital. Qual o segredo desse rock?

R: Caxias sempre teve muitas bandas e muitos músicos, mas havia uma separação em nichos na cidade, muito disso fomentado pelo próprio público. Então Caxias tinha cenas locais muito vivas, de vários estilos, mas que não conseguiam ter expansão. Hoje não posso dizer que todas as cenas estejam unidas, mas rolou uma junção de coisas que estão fazendo acontecer uma cena – que tá bem no começo ainda. Hoje tu tem um público eclético, numeroso, interessado. As bandas que têm identidade, autenticidade, estão conectadas e dentro do mundo. Caxias se cosmopolizou, é um centro urbano de meio milhão de habitantes que recebe milhares de novos moradores por ano, não é mais aquela “colônia” pejorativa. Tem espaços coletivos como a Casa Paralela, que aglutina produtores, hospeda shows e bandas, que foi o berço da Cusco e hoje é casa de várias outras, inclusive da Honey Bomb que é o selo que lançará nosso disco. Existe dialogo da cultura com o poder público, existe espaço onde a gente pode demandar coisas e ser ouvido. Sempre tem shows rolando, sempre acontecendo algum festival, bandas locais que circulam bastante por aí. Eu vejo que uma porção de gente percebeu a realidade da música hoje e tá botando em prática da forma que sabe, sem falar no principal que é o clima de apoio e amizade entre todos, e que aos poucos isso tá dando resultado, tá fazendo Caxias estourar a bolha dela.

Lado7: Gravado o primeiro disco, quais os novos objetivos da Cuscobayo?

R: Circular e expandir, o máximo que der.

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Foto: Paulo Pretz